Autocuidado para quê?

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“Quem não se ajeita, por si se enjeita”. Essa é uma das frases que mais ouvi de uma de minhas avós na infância. Para mim, essa ladainha era insuportável e eu fazia questão de deixar isso passar por mim. Mal sabia que hoje precisaria recorrer a isso em busca de me fortalecer.

O que minha avó me dizia – e diz até hoje – de maneira curta e grossa me parece um bom resumo para o que temos ouvido falar a torto e a direito sobre a necessidade do autocuidado. Prestar atenção na lua e entender como meu ciclo menstrual funciona, dormir mais cedo, estar perto de quem eu gosto, cantarolar, estudar o que quero. Encaixar isso na minha rotina têm sido minha tática de (sobre)vivência, mas o buraco do autocuidado é mais embaixo.

É preciso pensar sobre isso além de nosso próprio umbigo, sem cair nem na cilada de olhar demais para si e esquecer do mundo e vice-versa(1). Por exemplo, no dia a dia, tento fazer aquilo que é humanamente possível. Sinto que preciso me encher de atividades para provar o meu valor ao mundo, mas sei que isso não é verdade e então respiro fundo e faço o que o tempo permitir. Além do mais, eu e você estamos aqui pra re-mo-de-lar o que significa ser humano, porque no fim das contas o que nos apresentam é uma humanidade hétero, cis, branca e com um dinheiro que vem da exploração de outros seres.

Então como pensar o autocuidado?

Autocuidado para mim não é arrogância. É comum atacarem mulheres negras altivas e conscientes de si com o título de “arrogante”, mas também precisamos estar atentas com quais argumentos nos afirmamos no mundo. Somos descendentes sim de rainhas e toda sorte de mulheres incríveis que sustentaram inúmeras sociedades, mas realeza não é arrogância. É sobre responsabilidade consigo e com os outros.

Por isso penso que autocuidado para mim é preservação de meu ser, do ambiente que vivo e das pessoas que amo. É reconhecer os trabalhos de meus ancestrais, afinal de que adianta eu poder e ninguém mais? Não foi apenas para me olhar no espelho e reconhecer a minha beleza que eles lutaram.

Autocuidado é também andar de cabeça erguida para não ser rebaixada e não rebaixar ninguém. Mesmo sabendo que não temos poder institucional e histórico de rebaixar a tudo e a todos, não gosto de perder de vista que independente disso, posso querer me deslumbrar e achar que sei e sou mais que todos. Às vezes a gente se destrata e destrata os outros, nossos ou não, muito fácil. Por isso o cuidado é uma habilidade(2).

Beleza! Lindo! Mas por que falar disso agora Mariana? Em meio ao caos que o Brasil tem passado? Por que também não escrever sobre a importância do outubro rosa, algo que têm sido escamoteado das discussões amplas pelo terror que muitos de nós têm vivido? Para mim nada está desconectado.

Nós que sobrevivemos a tudo(3), saberemos como passar pelo o que quer que seja que venha pela frente depois dessas eleições presidenciais. Disputa essa em que a integralidade de serviços como o SUS e o atendimento a pessoas com câncer de mama, assim como tudo o que nos ajuda a existir, desde nossa alimentação até as nossas manifestações culturais.

Somos pessoas que não são reconhecidas como cidadãs na maioria das vezes ao mesmo tempo que sustentamos esse chão. Somos descendentes de pessoas que foram ridicularizadas, que foram impedidas de se expressarem, impedidas até de rezarem(4), que é a coisa que a gente mais faz quando tem medo. Mas nossos antepassados têm a tecnologia da resistência.

Quem não se ajeita fisicamente, por si se enjeita e não tem forças para lutar. Quem não se ajeita mentalmente, enjeita sua história e vive falando palavras de destruição. Quem não se ajeita espiritualmente, sucumbe a todo o terror que quer nos mobilizar em horas como essa. É por isso que temos a obrigação de nos cuidarmos. Não só para acordar dizendo “eu sou muito marivigold mesmo”, mas também para fazer jus àqueles que passaram e àqueles que virão.

E para você, o que é e para que serve o autocuidado?

Referências:

1 – O que aprendi com Anne Rodrigues durante o evento Agenciação Mulheres Atentas, Feminismos Singulares.

2 – Self care is a skill – Shelah Marie.

3 – Tatiana Nascimento em Palavra Preta.

4 – Carla Akotirene durante apresentação na Feira Internacional de Livros de Cachoeira (BA) em 2018.

Imagem de destaque: Dellon Thomas/ Nappy

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