Sobre os sorrisos que tentam nos arrancar

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Outro dia vi nesses feeds da vida uma pessoa – uma mulher negra – comentando como é comum nós, mulheres negras, tirarmos fotos sorrindo de forma quase compulsória. A Maya Angelou* já escreveu em outros tempos sobre como somos treinadas em sociedades que nos desrespeitam a mover os músculos da nossa face e nossa voz como se fosse um riso, vestindo uma verdadeira máscara pela sobrevivência.

E olhando para a minha vida, isso parece tão certo. Principalmente em situações constrangedoras. São risos às vezes de deboche, às vezes de nervoso. Mas lembro que não raro deixo de falar o que penso por preguiça ou medo ou me achar irrelevante. Escolho aquele riso amarelo, apertado, pequeno, sabe?

Ao mesmo tempo, penso: por que não rir num mundo que nos coloca tanto pra baixo? Uma amiga minha costumava dizer quando perguntávamos “tudo bem?” com um sincero “que mal vai?”*, como se tivesse pedindo ao universo que as coisas se alinhassem. Afinal, as coisas não tem sido fáceis para nós há alguns séculos. Mas bem, hoje eu estou viva escrevendo isso aqui, você viva lendo esses meus devaneios. Não seria um motivo de comemorar? Escolher um riso brilhante, frouxo, grande?

Mais uma vez chegamos num ponto a caminho de nossa liberdade: é uma questão de consciência. De nossa história, de quem somos ou queremos ser, da fala e do silêncio, do riso ou do choro que queremos. Podemos hoje escolher para qual lado dessas duplas vamos caminhar para sermos livres de verdade.

Leia também: “Se não tivéssemos amado uns aos outros, nenhum de nós teria sobrevivido”.

Poderia falar que essa escolha é se dar ao luxo, e talvez seja pensando nas oportunidades que acesso e tantos outros não conseguem nem imaginar que podem, mas essa mesma escolha é também – e talvez principalmente – uma necessidade. Aprendi com outra amiga que hoje colhemos os frutos da liberdade de nossos avós, bisávos, tataravós**. Cabe a nós fazer jus a toda essa resistência.

Que os sorrisos que a gente escolha arrancar sejam de alegria e plenitude.


*Maya Angelou foi um artista afro-americana e ativista pelos direitos civis. O poema que faço referência é o “We Wear The Mask” (Nós vestimos a máscara – em tradução livre). Não consegui encontrar uma tradução em português, mas você pode assistí-la recitando neste vídeo aqui com legendas automáticas em português.

+Conheça mais de sua história aqui: “Maya Angelou, uma vida completa” por Alberto López para El País

Agradecimentos a **Telma Souza e a ***Jéssica Ndukwu por compartilharem seus risos e sabedoria.

Foto em destque: Thomas Nichols/ Nappy

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