“Se não tivéssemos amado uns aos outros, nenhum de nós teria sobrevivido”.

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I know how black it looks today for you. It looked black that day too. Yes, we were trembling. We have not stopped trembling yet, but if we had not loved each other, none of us would have survived, and now you must survive because we love you and for the sake of your children and your children’s children.” James Baldwin (A letter to my nephew – 1962) *

Mais uma vez passei um bom tempo sem escrever ou publicar um dos meus textos.

Mais uma vez eu me encontro no dilema entre o silêncio e a fala.

Preocupo-me em não fazer bandeira da minha dor, afinal sou mais que isso! Cada parte de mim transcende as expectativas racistas, heterosexistas por si só. Então não me satisfaço com qualquer (abuso de) visibilidade em cima dessas experiências, porque isso não alimenta a minha alma. Mas hoje escrevo e publico porque mais uma vez sou compelida a me posicionar e dessa vez escolhi me utilizar da potência da fala, dessa fala de mim.

Sinto que assim trilho o caminho para ser eu mesma, em plenitude. Talvez colocando para fora sensações tão escondidas em mim, de vivências que não se limitam ao meu mundo, possa ajudar alguém.

Por isso, escrevo como ato de amor. A essa altura do campeonato não me atrevo a acreditar num amor romântico, que suporta a tudo e a todos, que se submete.

Penso que precisei questionar esse romantismo forçadamente, para não sucumbir ao adoecimento afetivo-mental.

Falo de um amor escrito por pessoas como bell hooks, James Baldwin, Ana Flauzina, Luedji Luna. Falo de um amor que que tenho encontrado nas pessoas que estão no meu dia a dia e têm se tornado amigas. Falo portanto, de um amor ancestral, que emana dos meus pais e perpassa pelas minhas entranhas.

Peço aqui toda a licença para usar essa palavra: ancestral. Tenho medo de banalizá-la numa apropriação apressada. Reconectar-me com meus antepassados tem algo de mágico sim, mas não menos concreto, não menos político, não menos presente.

Escrevo e publico hoje porque estou exausta de policiar tanto o que sinto e que penso pelo medo de ser violentada.

Escrevo e não procuro cânones literários, tampouco grilhões acadêmicos. Espero que por minhas palavras você possa conversar comigo, como se olhasse nos meus olhos.

Não sei onde quero chegar com todas essas palavras, mas sei que escrevo porque vivo. E vivo porque fui e sou amada.

Por favor, não esqueça que você também merece o amor.

*Em 1962, em pleno movimento pelos direitos civis nos EUA, o escritor e dramaturgo estadunidense James Baldwin escreveu uma carta para seu sobrinho onde fala sobre os desafios que o racismo impõe à sua vida, a de sua família e a vergonha que isso é para seu país. O texto foi publicadona revista Progressive (pode ser lido aqui em inglês) e entre muitas passagens a que mais me tocou foi essa que abre o texto de hoje:

Eu sei o quão escuro é hoje para você. Aquele dia estava escuro também. Sim, nos tremíamos. Ainda não paramos de tremer, mas se não tivéssemos amado um ao outro, nenhum de nós teria sobrevivido, e agora você deve sobreviver, porque nós te amamos e em consideração aos seus filhos e os filhos deles. (Tradução livre feita por mim).

Crédito da foto da capa: TessaMansfield-Hung. Tirada durante a gravação do clipe “Black Girl Magik” de Sampa The Great.

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